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Mostrando postagens de 2022

Quebrado

Choro preso na garganta. Não, não sei o motivo, nem quero chorar, mas o choro está aqui, represado.  Há uma dor, uma dor perene, uma enxaqueca emocional. Cada vez que o coração bate, cada volta que o sangue dá, dói. Não, não sei o motivo, não há prazer nessa dor, não é uma dor amiga.  Há uma desesperança, uma apatia profunda, o mundo é colorido ao meu redor, mas só o vejo cinza e às cinzas.  Não, não sei o motivo, não quero morrer, mas viver está doendo.  Eu ando, mas não caminho. Eu salto, mas não saio do chão. Eu decolo, mas não voo. Eu mergulho, mas não me molho.  Não, não sei o motivo, mas abrir os olhos não é confortável e respirar é um desafio.  Pessoas falando coisas inaudíveis, músicas tocam desafinadas, na TV as imagens estão borradas, bem-te-vis gralham e cigarras uivam. Não, não sei o motivo, nem sei se há e isso é agoniante.  Olho para o horizonte e nada vejo, olho ao redor e vejo nada. Há apenas o não existir, um vasto e inextinguível vazio. Não...  Não sei o motivo...

Jamais Esqueceremos

Da inércia veio o golpe...  Passaria desapercebida sua chegada, não fosse a adoção da estupidez, da crueldade, do silenciar da desesperança. A dor tornou-se moeda corrente, o medo fez morada nas esquinas, o som dos motores não causava euforia, mas apenas pânico. Com requintes azuis, vermelhos e brancos, a bandeira outrora azul, branca, verde, amarela fez-se rubra, temperada com sangue de ratos e pólvora. Uma terra, outrora construída com o sangue de mãos pretas, que, contudo, hasteava bandeira com as cores do brasão de família luso-austríaca, herdeiros, exploradores, foi inundada pelo ridículo e patético pânico de um projeto de sociedade justa, dos comuns. O verde, herança de Bragança na flâmula, agora era a cor daqueles que distribuíam tiros, pontapés e torturava o próprio povo. O amarelo, herança de Habsburgo, agora era apenas a cor da luz nos postes, iluminando corpos inertes, outrora cheios de jovem vigor e vasta esperança. Ao branco e azul restaram os papéis e tintas das esferográ

Conjugando a noite (poema)

Comendo, bebendo, falando, Beijando, transando, fudendo, Vendo, rindo, ouvindo,  Olhando, respirando, dormindo... Era tudo muito bom, Em tudo havia paz, Este deve ser o tom, Vida boa assim se faz. Disso ainda quero mais, Consumidor contumaz, Porto um apetite voraz. Então eu ouso repetir, Estou aqui, pode vir, Meu prazer é te servir, Teu prazer faz-me ebulir.

Sempre passa (poema)

Aqui o tempo passa assim Seguindo o tempo dele No ritmo da rua Na cadência do vento No corre das motos Nas páginas dos livros Aqui o tempo passa assim Sem pedir licença Sem dar satisfação Sem tirar nem dar Tirando tudo do lugar Passa assim sem parar Passa passando Não se importa com nada Dono de si Dono de mim Passou de novo E vai passar Sempre passa...

Rotina é um trem bem coisado

Toca o alarme, acorda, banho, se apronta, trabalha, descansa, programa o alarme, dorme. Está aí um sucinto resumo resumido da rotina do brasileirinho trabalhador, nós, esse povo que todo dia toma um 7x1 na cabeça mas que, por razões basicamente instintivas, insiste em sobreviver. Uns sobrevivem "apesar de", outros "por causa de", mas no frigir dos ovos o que acontece é o resultado dessa mania insistente de persistir. Nesta sequência caótica aleatória de eventos que chamamos de vida, buscamos encontrar alguma forma de ordem, é uma demanda natural do ser humano, encontrar padrões onde muitas das vezes nem há. Apesar de todo o caos cotidiano, muitos buscam organizar seus dias. Definir um fluxo adequado de ações para tornar seus dias proveitosos. Organizamos o tempo pro trabalho, pros estudos, pra família, pro entretenimento, etc etc.  Legal, bonito no papel, bonito quando falamos, mas e o tal do "na prática"?? Fu-deu! Coisa mais comum que se encontra nesse mu

Nada mais

Agarrar litros de água entre duas mãos cruas, este é o erro da pessoa que tenta prender tua energia vital para si. Vãos e torpes são os intentos de tomarem apenas para si a vivacidade que há em ti.   Não posso negar que um sorriso me brota no rosto quando vejo as pessoas seduzidas por seus traços, encantadas pelo teu caminhar, entorpecidas pelos teus olhares e dominadas por cada feitiço lançado ao mover de teus lábios.   Sob o encanto de observá-la, em tudo que exalava tua existência, desejei saciar minha sede em tuas nascentes. Então, tal qual alguns deuses benevolentes de outrora, decidiu me favorecer dentre os demais e tornar-me o mais sortudo dentre os mortais.   Porque foi de tua boca enrubecida que provei beijo mais doce que o mel, de tuas mãos minha pele provou o toque mais agradável que lençóis de mil fios, de tuas coxas minha boca se deliciou com o mais perfumado licor e em teus olhos eu vi as chamas escarlates que acenderam minha presente existência.   A