domingo, 7 de dezembro de 2014

E agora, Tulipão? Que faço eu da vida sem você...

Hoje é dia sete de dezembro de 2014 e falarei hoje sobre a melhor padaria do bairro.

Eu nunca, jamais, imaginei que sofreria o impacto que sofri ao ouvir a frase, vinda do gerente da melhor padaria do bairro onde moro: "sim, vamos fechar, dia 24 é o último dia".


O ano, 1999. Bairro novo, vida nova. Eu, nos meus tímidos quinze anos de idade, saí andando pelo bairro, a pé, para saber onde ficavam as coisas. Locadoras, padarias, escolas, farmácias, pontos de taxis, sorveterias. Fiquei deslumbrado. Era tudo muito diferente do meu bairro antigo. Nem melhor, nem pior, era apenas.... diferente.

Localizei todos os meus pontos de interesse, inclusive por onde andavam as meninas mais lindas do bairro (mesmo que eu jamais tivesse meio porcento de chance com elas). Nesta "andança", localizei uma padaria pequena careira, uma padaria modesta, uma padaria grande e uma mercearia que não tinha pão. Sim, como perceberam, pão é critério de classificação. Culpa do vô, aprendi com ele.

Fato: tempo passou, a mercearia sem pão fechou. Depois, a padaria modesta fechou. Ficaram duas. A careira que tinha quase nada e a grande. Esta última, minha predileta, a Tulipão.

O ano, 2013. O bairro mudou bastante. As padarias, até então, ainda não, porém no fim do ano, uma nova e garbosa padaria foi aberta. Daquelas típicas de área nobre, com acabamento em madeira e preto, que tem até pizzaria dentro. O preço das coisas dela também eram nobres. O perfil dos clientes, como esperado, compostos basicamente pela classe média metida a classe A. Acontece.

O ano, 2014. Dezembro, dia 06. Sábado à tarde. Estou ao caixa da Tulipão. Como de praxe, depois de fazer as compras no supermercado, na volta, sempre passo por ela. Hora de comprar o pão da tarde, o picolé e o maço de Carlton.

Eis que, de um cliente, em diálogo com o gerente da padoca:
Cliente: Então o seu Antônio vendeu mesmo?
Gerente: Sim.
Cliente: E vai continuar sendo padaria?
Gerente: Não não.
Cliente: Poxa...
Gerente: Pois é...

Silêncio. Eu e mais duas outras clientes na fila nos olhávamos. Em choque. COMO ASSIM!?
Como pode um maldito estabelecimento comercial ser tão relevante? Como deixei que uma simples padaria fosse tão importante para mim? Fato é que, dia após dia, ela estava sempre ali, aberta, à disposição. Pão, leite, chocolate, picolé, chiclete, bolo, biscoito, café, sorvete, refrigerante, cerveja, água... puf... não mais.

De repende nos demos conta, eu e as clientes ali na fila, de que um pedaço do bairro seria tirado de nós. Do bairro não, de nós. Boa parte do bairro é formada por antigos moradores. É um perfil já incomum nesta Belo Horizonte em gigante crescimento nas últimas décadas, mas é o daqui.

Por mais banal que possa parecer, o fim da Tulipão marca um capítulo da história do Cidade Nova. Um capítulo da minha história. Ter que encontrar um novo porto é doloroso, traumático.

Difícil lidar com mudanças. Pior ainda com mudanças não planejadas.
Eu ainda não sei como lidar com isto.

Tulipão, a padaria, o porto seguro do bairro, fechará as portas. Fará falta. Muita.