segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Como o choro de carpideiras

Desde que se lembra, era assim, digamos, muito boa no que fazia. Naquele dia, porém, chorava. Não entendia o motivo, mas melancolicamente chorava. Não era ela exatamente quem chorava, eram suas juntas, partes do seu corpo que pareciam lamentar. Não era um choro silencioso, era um choro seco, sem lágrimas, mas dolorido, algo próximo do que seria o choro das carpideiras se fossem sinceras em seu ato.


Ficou ali, durante dias, a ouvir aquele choro dolorido. Em alguns destes dias, vez por outra, porém, o choro cessava, aliás, não o choro, mas o lamento, aquele som maldito que ela emitia, ainda sem conseguir compreender o motivo. Ela não, parte dela. O que não deixava de ser... ela.


Nestes poucos momentos de silêncio, perguntava-se algo parecido com "Por quê?", ao mesmo tem que lembrava-se dos dias em que a vida lhe era tão simples e satisfatória. Naqueles dias, dos quais ela agora sentia sincera saudade, ela era feliz em fazer o que fazia. Tinha verdadeiro orgulho quando era convocada a cumprir sua missão e, com perfeição, cumpria-lhe.


Foi assim, por dias, vivendo ora da melancolia cuja razão lhe fugia a compreensão e ora da saudade dos dias em que tão bem desempenhava suas funções, sem lamento. A verdade é que, mesmo emitindo aquele som melancólico e dolorido ela continuava exercendo suas atividades com sucesso. Mas já não era a mesma coisa.


Um dia, quando estava distraída, num dos raros momentos de silêncio, meteram-lhe sem que pedissem permissão. Assustada, porém sem reação, ficou ali, em choque, tentando compreender o que havia acontecido.


Foi só no dia seguinte que percebeu. Era óleo. Haviam calado o lamento. Ela voltou a sorrir e por muito tempo teve paz, fazendo o que lhe dava prazer em fazer, sem parte alguma dela lamentar, chorar ou emitir sons desagradáveis e tristes.


Era, novamente, feliz.